Você já se olhou no espelho e sentiu que a parte inferior do seu corpo parecia pertencer a outra pessoa? Ou já passou meses seguindo dietas rigorosas, viu o rosto e o colo emagrecerem, mas suas pernas e quadris permaneceram praticamente inalterados, pesados e doloridos? Se essa situação soa familiar, preciso que saiba: você não está sozinha e, muito provavelmente, o que você tem não é “apenas gordura” ou falta de força de vontade. A confusão entre obesidade e lipedema é uma das maiores barreiras que impedem mulheres de viverem sem dor e com a autoestima recuperada.
No meu consultório, recebo diariamente pacientes exaustas. Elas chegam carregando não apenas o peso físico nas pernas, mas o peso emocional de anos ouvindo que precisavam “fechar a boca e malhar mais”, quando, na verdade, estavam lidando com uma doença inflamatória crônica que exige uma abordagem completamente diferente. A frustração de tentar comprar botas que não fecham na panturrilha ou calças que sobram na cintura e apertam nas coxas é um relato constante.
Como cirurgiã plástica formada pela Universidade de São Paulo (USP) e com grande expertise no tratamento do Lipedema, meu objetivo com este artigo é trazer clareza. Não vou lhe prometer milagres, pois a medicina séria não funciona assim. Mas vou lhe oferecer a verdade sobre o diagnóstico, as diferenças cruciais entre essas duas condições e como um tratamento multidisciplinar — unindo cirurgia de excelência e pilares da medicina do estilo de vida — pode transformar sua realidade.
O que é Lipedema? Entendendo a Raiz do Problema
Para começarmos a desemaranhar esse nó, precisamos definir o que é o Lipedema. Ao contrário do que muitos pensam, ele não é simplesmente um acúmulo de gordura causado por excesso de calorias. O Lipedema é uma doença do tecido conjuntivo, crônica e progressiva, onde o tecido adiposo (gordura) é um dos principais acometidos, mas não o único vilão da história.
Imagine que, no Lipedema, a gordura se comporta de maneira doente. Ela inflama, forma fibroses (cicatrizes internas) e nódulos que podem ser dolorosos ao toque. Além disso, há uma frouxidão ligamentar associada e uma tendência maior à retenção de líquidos e fragilidade capilar — sabe aqueles roxos que aparecem nas pernas sem que você se lembre de ter batido em lugar nenhum? Isso é clássico do quadro.
É fundamental entender que esta condição é predominantemente feminina. O Lipedema em homens é algo extremamente raro e, quando ocorre, geralmente está associado a problemas hormonais específicos ou outras patologias graves. Portanto, estamos falando de uma condição que afeta a saúde da mulher de forma integral.
Não é apenas estética, é saúde
Muitas pacientes chegam até mim com vergonha, achando que buscar tratamento é “vaidade”. Eu sempre digo: tratar o Lipedema é tratar saúde. A dor, a sensação de peso, a dificuldade de mobilidade e o impacto psicológico não são questões menores. A estética é uma consequência feliz do tratamento, mas o foco principal é devolver a funcionalidade e o bem-estar.
Diferenças Fundamentais: Obesidade x Lipedema
Esta é a dúvida mais comum e a mais importante de ser esclarecida. Embora sejam condições distintas, é extremamente frequente que as duas coexistam. O acúmulo de gordura do lipedema e a sintomatologia associada (como a dor e o peso nas pernas) podem levar a deformidades e dificultar a locomoção, gerando um maior sedentarismo. Esse ciclo vicioso pode agravar o ganho de peso sistêmico, levando à obesidade secundária.
No entanto, para o diagnóstico correto, precisamos observar as diferenças:
- Distribuição da Gordura: Na obesidade, o acúmulo de gordura tende a ser generalizado (rosto, tronco, abdômen, braços e pernas). No Lipedema, a distribuição é desproporcional. A mulher pode ter a cintura fina e o tronco magro, mas apresentar quadris, coxas e pernas volumosos.
- Resposta à Dieta e Exercício: A gordura da obesidade responde bem ao déficit calórico (comer menos e gastar mais). A gordura do Lipedema é resistente. Você pode emagrecer muito, ficar com o rosto “chupado”, e as pernas continuarem com o mesmo volume.
- Sensibilidade e Dor: A obesidade, isoladamente, não costuma doer ao toque. No Lipedema, a dor é o sintoma mais comum, presente em cerca de 86% das pacientes. O simples toque de uma criança ou o peso de um gato no colo pode ser insuportável.
- Pés e Mãos: No Lipedema, é comum observarmos o “sinal do garrote”. O inchaço e a gordura param abruptamente nos tornozelos (ou punhos), deixando os pés (ou mãos) livres de inchaço, criando uma espécie de degrau. Na obesidade e no linfedema (outra condição que confunde), o inchaço costuma afetar o peito do pé.
Vale ressaltar: o risco metabólico (diabetes, hipertensão) tende a ser menor no Lipedema puro do que na obesidade isolada. Porém, quando existe obesidade associada — o que é muito comum — o risco metabólico passa a ser o da obesidade. Por isso, a abordagem deve ser sempre global.
Sintomas Reais: O que as pacientes sentem?
A escuta ativa é a minha principal ferramenta de diagnóstico inicial. Antes de examinar, eu preciso ouvir a sua história. Muitas vezes, a paciente relata uma vida inteira de desconforto. Os sintomas variam de intensidade, mas os mais frequentes incluem:
- Dor e Peso nas Pernas: Uma sensação de cansaço extremo no final do dia, como se estivesse carregando pesos de chumbo nos tornozelos. Importante: a ausência de dor não exclui o diagnóstico (cerca de 14% das pacientes não sentem dor), mas a desproporção corporal deve estar presente.
- Hematomas Fáceis: Manchas roxas que aparecem espontaneamente ou com traumas mínimos.
- Nódulos Palpáveis: Ao passar a mão na coxa ou no braço, sente-se uma textura irregular, como se houvesse “bolinhas” de gude ou sagu sob a pele.
- Frouxidão Ligamentar: Muitas pacientes com Lipedema têm hipermobilidade articular (conseguem dobrar os dedos ou cotovelos mais que o normal) e tendem a ter mais entorses de tornozelo e problemas nos joelhos.
- Piora com o Calor e Ciclo Menstrual: A retenção de líquido e a dor costumam agravar em dias quentes ou no período pré-menstrual.
O Diagnóstico Médico: Toque, Olhar e Experiência
Muitas pacientes me perguntam: “Dra., qual exame de sangue eu faço para saber se tenho Lipedema?”. A resposta é: nenhum. O diagnóstico do Lipedema é eminentemente clínico. Ele depende de um médico com o olhar treinado e as mãos experientes para examinar a textura da pele, a distribuição da gordura e a resposta dolorosa ao toque.
Exames de imagem, como ultrassom ou ressonância magnética, podem ajudar a descartar outras doenças ou avaliar a extensão do problema, mas não substituem o exame físico. É por isso que a consulta presencial é tão valiosa.
Na minha prática, tanto na unidade do Instituto Lipedema Brasil em Ibirapuera, São Paulo, quanto nas consultas online (onde guio a paciente para o autoexame e analiso visualmente), dedico tempo para entender o histórico desde a puberdade, gestações e menopausa — momentos de “tempestade hormonal” que costumam ser gatilhos para a doença.
Medicina do Estilo de Vida: A Base de Tudo
Aqui entra um ponto onde sou extremamente sincera: a cirurgia não faz milagre sozinha. Eu utilizo ferramentas da medicina do estilo de vida no meu atendimento como cirurgiã plástica porque acredito que tratar a inflamação de dentro para fora é crucial para o sucesso de qualquer procedimento e para a manutenção dos resultados.
Não se trata apenas de “fazer dieta”. Trata-se de adotar uma alimentação anti-inflamatória, gerenciar o estresse, melhorar a qualidade do sono e, fundamentalmente, praticar atividade física. O exercício para quem tem Lipedema não é opcional, é remédio.
Movimento é Vida
Sei que pode ser difícil se exercitar quando se sente dor ou vergonha do corpo. Mas a contração muscular ajuda a bombear o sistema linfático, reduzindo o inchaço. Musculação, pilates, bicicleta, yoga e caminhadas são excelentes opções. Exercícios na água (hidroginástica, natação) também são fantásticos pela compressão natural da água, mas não são os únicos recomendados.
O objetivo não é se tornar uma atleta olímpica, mas sair do sedentarismo. Com o tratamento adequado, muitas vezes é possível viver sem dor e retomar o prazer em se movimentar.
O Tratamento Cirúrgico: Quando a Lipoaspiração é Indicada?
Fui uma das pioneiras a realizar a cirurgia de Lipedema no Brasil, em 2015, junto com o Dr. Fábio Kamamoto. Desde então, as técnicas evoluíram muito. O tratamento cirúrgico é indicado quando o tratamento conservador (clínico) não traz o alívio suficiente dos sintomas ou quando a desproporção corporal afeta severamente a qualidade de vida e a mobilidade da paciente.
A cirurgia para Lipedema não é uma lipoaspiração estética comum. Ela requer um cuidado redobrado com o sistema linfático para evitar danos. O objetivo é remover o máximo possível do tecido adiposo doente, respeitando a anatomia e a segurança da paciente.
Técnicas e Tecnologias
Para otimizar os resultados e lidar com a flacidez — que é uma característica intrínseca do Lipedema devido à qualidade do colágeno — utilizo tecnologias avançadas para retração de pele durante a cirurgia. Essas tecnologias nos permitem tratar a flacidez de forma mais eficiente do que apenas com a lipoaspiração tradicional, embora, em casos de grandes perdas de peso ou flacidez severa, a retirada de pele (dermolipectomia) ainda possa ser necessária.
É importante alinhar expectativas: a cirurgia melhora muito o contorno e alivia drasticamente a dor na maioria dos casos, mas não “troca” o corpo da paciente por outro. Buscamos a melhor versão do seu corpo, com mais saúde e harmonia.
A Importância da Equipe Multidisciplinar
Ninguém trata Lipedema sozinho. O sucesso do tratamento depende de uma abordagem em várias frentes. É por isso que, como Diretora Clínica da unidade Ibirapuera do Instituto Lipedema Brasil, coordeno uma equipe que envolve nutricionistas, endocrinologistas, cirurgiões vasculares e fisioterapeutas.
O acompanhamento pré e pós-operatório é tão importante quanto a cirurgia em si. Precisamos desinflamar o corpo antes de operar para reduzir riscos e acelerar a recuperação. E, no pós-operatório, a fisioterapia especializada é obrigatória para prevenir fibroses e garantir um resultado estético e funcional de excelência.
Atendo pacientes de todo o Brasil e do exterior, e nossa estrutura está preparada para oferecer esse suporte global, inclusive com a facilidade de nossa unidade estar próxima ao aeroporto de Congonhas.
Cirurgias Reparadoras Pós-Emagrecimento
Muitas pacientes com Lipedema, ao iniciarem o tratamento conservador, conseguem perder a gordura “não-lipedema” (a gordura da obesidade associada), sobrando então o excesso de pele. Ou, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica e agora buscam reconstruir seu contorno corporal.
Nesses casos, realizamos cirurgias reparadoras (abdominoplastia, braquioplastia, cruroplastia, mastopexia). Aqui, novamente, a sinceridade é vital: cicatrizes existem. A cirurgia plástica é uma troca: trocamos flacidez e deformidade por uma cicatriz planejada. O meu papel é fazer com que essa cicatriz seja a melhor possível e que o resultado traga liberdade para você.
Conclusão: Um Convite ao Autocuidado Real
O diagnóstico de Lipedema ou a luta contra a obesidade não definem quem você é, mas o tratamento que você escolhe pode definir a sua qualidade de vida futura. Não busque soluções mágicas ou promessas de corpos inatingíveis vistos nas redes sociais. Busque saúde, funcionalidade e um contorno corporal que lhe permita viver plenamente.
Se você se identificou com os sintomas citados ou busca uma cirurgiã plástica que priorize a sua saúde integral e seja franca sobre os resultados, eu, Dra. Juliana Reis, estou à disposição para avaliarmos o seu caso. Seja na nossa unidade em Ibirapuera ou via telemedicina, vamos traçar juntas um plano de tratamento seguro e personalizado para você.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Lipedema tem cura?
O Lipedema é uma doença crônica, portanto, não falamos em cura definitiva, mas sim em controle. Com o tratamento cirúrgico (remoção da gordura doente) aliado a um estilo de vida anti-inflamatório, é possível viver sem dor e controlar a evolução da doença, mantendo os resultados a longo prazo.
2. O plano de saúde cobre a cirurgia de Lipedema?
O Lipedema foi reconhecido como doença pelo CID-11. No entanto, o tratamento cirúrgico envolve a lipoaspiração, que atualmente não consta no rol de procedimentos da ANS (Agência Nacional de Saúde) com cobertura obrigatória para esta finalidade. Portanto, até o momento, a maioria dos convênios não cobre a cirurgia, embora possam cobrir internações ou tratamentos associados dependendo do contrato.
3. Posso fazer a cirurgia se estiver acima do peso?
Lipedema e obesidade frequentemente coexistem. Em muitos casos, precisamos tratar a obesidade e a inflamação sistêmica primeiro (com acompanhamento endocrinológico e nutricional) para tornar a cirurgia mais segura e eficaz. Não existe um peso “proibitivo” absoluto, mas existe o peso ideal para a segurança cirúrgica e para o resultado estético.
4. A gordura do Lipedema volta depois da cirurgia?
A gordura removida na cirurgia (adipócitos) não volta. No entanto, se a paciente ganhar muito peso no futuro, as células de gordura restantes no corpo podem aumentar de volume. Por isso, a manutenção de hábitos saudáveis é parte integrante do resultado vitalício.
5. Mulheres magras podem ter Lipedema?
Sim. O Lipedema não é exclusivo de pessoas com sobrepeso. Muitas mulheres magras apresentam a desproporção característica nas pernas ou braços e sofrem com dores e hematomas, mesmo sem ter excesso de peso global.
Por que confiar neste conteúdo?
- Este artigo foi redigido com base nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e em protocolos internacionais de tratamento do Lipedema.
- O conteúdo é revisado pela Dra. Juliana O. G. Reis (CRM-SP 120293 | RQE 47596), cirurgiã plástica formada pela USP.
- A autora possui vasta experiência prática, tendo participado de uma das primeiras cirurgias de Lipedema no Brasil em 2015 e atuando como Diretora Clínica do Instituto Lipedema Brasil (unidade Ibirapuera).
- As informações aqui contidas visam a educação médica e o alinhamento de expectativas reais, sem promessas de resultados milagrosos, respeitando o Código de Ética Médica.