Você já se olhou no espelho e sentiu que seu corpo parece pertencer a duas pessoas diferentes? Da cintura para cima, você veste um tamanho, talvez até tenha facilidade em perder peso ou definir o abdômen. Mas, da cintura para baixo, a história é completamente outra. Você convive com pernas grossas e doloridas, sensibilidade ao toque e hematomas que aparecem “do nada”. E o mais frustrante: você faz dietas rigorosas, se exercita, vê o rosto afinar, o tronco secar, mas os quadris e as pernas continuam praticamente iguais.
Se essa narrativa soa familiar, eu preciso validar o que você sente: não é “falta de força de vontade”, não é “preguiça” e, muito provavelmente, não é apenas obesidade. No meu consultório, a escuta ativa é a primeira ferramenta que utilizo, pois sei o quanto é desgastante ouvir de profissionais de saúde que “basta fechar a boca e malhar mais”.
Sou cirurgiã plástica formada pela Universidade de São Paulo (USP) e dedico grande parte da minha vida profissional ao entendimento e tratamento do Lipedema e do contorno corporal. Ao longo dos anos, atendendo pacientes de todo o Brasil e do exterior, percebi que a frustração com as dietas convencionais é uma constante. Neste artigo, quero explicar, com a sinceridade e a base científica que pautam minha carreira, por que a restrição calórica isolada não resolve o problema das pernas com Lipedema e qual o caminho real para o tratamento.
O que realmente está acontecendo com o tecido das suas pernas?
Para entender por que a dieta falha, primeiro precisamos entender a biologia do problema. O Lipedema não é apenas um acúmulo de gordura comum. Trata-se de uma doença crônica e progressiva do tecido conjuntivo, onde o tecido adiposo (gordura) é um dos principais acometidos, mas não o único vilão.
Diferente da obesidade “clássica”, que é um acúmulo global de energia estocada em forma de gordura, o tecido do Lipedema apresenta características inflamatórias específicas. Existe uma desorganização na estrutura desse tecido, acompanhada de fibrose (cicatrizes internas), frouxidão ligamentar e um processo inflamatório constante. É por isso que muitas pacientes relatam dor. A gordura do Lipedema dói porque o tecido está doente, inflamado e sob pressão.
Quando você faz uma dieta restritiva focada apenas em déficit calórico, seu corpo consome a gordura “metabolicamente ativa” e saudável que está no seu tronco, rosto e braços (se estes não forem afetados). A gordura do Lipedema, por sua vez, tem um comportamento metabólico diferente; ela é resistente à perda de peso tradicional. O resultado visual é o aumento da desproporção corporal, o que gera ainda mais angústia e distorção de imagem.
A inflamação e a resistência à perda de peso localizada
Um conceito fundamental que discuto com minhas pacientes no Instituto Lipedema Brasil é que o tratamento precisa ir além da balança. O Lipedema é uma condição inflamatória. Portanto, uma dieta que visa apenas cortar calorias, mas mantém alimentos pró-inflamatórios (como excesso de processados, açúcares refinados e glúten em indivíduos sensíveis), não trará o alívio dos sintomas, mesmo que haja perda de peso na balança.
A “matemática” do emagrecimento não se aplica da mesma forma aqui. O tecido doente cria um ambiente de hipóxia (falta de oxigenação) e fibrose que “aprisiona” as células de gordura, dificultando que o corpo acesse essa energia para queimá-la. É como se essa gordura estivesse trancada em um cofre ao qual o metabolismo comum não tem a chave.
Isso não significa que a alimentação não seja importante. Pelo contrário, ela é vital. Mas o foco deve mudar: saímos da “dieta para emagrecer” e entramos na “estratégia nutricional anti-inflamatória”. É aqui que utilizo ferramentas da medicina do estilo de vida na minha prática como cirurgiã plástica. O objetivo inicial é desinflamar o corpo para reduzir a dor, o inchaço (edema) e melhorar a qualidade de vida, preparando o terreno para qualquer intervenção futura.
Por que o exercício físico comum parece não funcionar?
Muitas mulheres chegam ao meu consultório em São Paulo relatando que frequentam a academia religiosamente, mas as pernas continuam grossas ou até aumentam de volume. Isso gera uma sensação de impotência devastadora. Mas existe uma explicação fisiológica para isso.
Exercícios de alto impacto sem a devida compressão ou orientação podem, em alguns casos, piorar o edema e a dor em pacientes com Lipedema, devido à fragilidade capilar e à frouxidão ligamentar associada à doença. Além disso, se a paciente tiver uma hipertrofia muscular (ganho de massa magra) por baixo de uma camada de gordura que não diminui, o volume total do membro pode, de fato, aumentar visualmente.
No entanto, o sedentarismo é o pior inimigo. O músculo da panturrilha é o nosso “segundo coração”; ele precisa bombear o sangue e a linfa para cima. A atividade física é inegociável, mas precisa ser estratégica. Exercícios na água (como hidroginástica ou natação) são excelentes pela pressão hidrostática que ajuda na drenagem, mas não são as únicas opções. Musculação, pilates, yoga e bicicleta são fundamentais para manter a massa magra e a saúde articular. O segredo não é o exercício que “queima gordura localizada” (pois isso é um mito biológico), mas sim o exercício que melhora a bomba muscular e controla a inflamação sistêmica.
O papel da Cirurgia Plástica: Quando a mudança de estilo de vida atinge o limite
Eu sou extremamente sincera com minhas pacientes: a cirurgia não é mágica e não substitui o estilo de vida saudável. Porém, no caso do Lipedema, o estilo de vida tem um teto de resultados. A alimentação anti-inflamatória e o uso de meias de compressão podem tirar a dor e reduzir o inchaço, mas eles não removem a gordura doente e fibrótica que já se instalou.
É nesse momento que a cirurgia plástica entra como parte do tratamento. Fui uma das médicas que participou das primeiras cirurgias focadas em Lipedema no país, em 2015, ao lado do Dr. Fábio Kamamoto, e desde então venho aprimorando a técnica para oferecer segurança e resultado.
O tratamento cirúrgico do Lipedema envolve a lipoaspiração tumescente, muitas vezes associada a tecnologias modernas de retração de pele. O objetivo é remover o tecido doente para aliviar a carga mecânica sobre as articulações, melhorar a mobilidade e, claro, harmonizar o contorno corporal. Mas, como cirurgiã formada na USP, minha prioridade é a segurança: respeitamos limites de retirada de gordura por cirurgia para não comprometer a saúde metabólica e hemodinâmica da paciente.
A importância da Equipe Multidisciplinar
Nenhum cirurgião opera milagres sozinho. O sucesso de uma cirurgia de Lipedema ou de contorno corporal começa muito antes da sala de operação. Na unidade Ibirapuera do Instituto Lipedema Brasil, onde atuo como Diretora Clínica, defendemos uma abordagem integrada.
O tratamento ideal envolve:
- Nutrição especializada: Para modular a inflamação.
- Endocrinologia: Para verificar se não há outros distúrbios metabólicos associados.
- Fisioterapia e Vascular: Para cuidar da drenagem e saúde dos vasos.
- Cirurgia Plástica: Para a remoção mecânica do tecido doente.
Eu utilizo os pilares da medicina do estilo de vida para otimizar o pré-operatório. Uma paciente que vai para a cirurgia desinflamada, bem nutrida e ativa tem uma recuperação infinitamente melhor e riscos de complicações menores. A cirurgia é uma etapa fundamental, mas é a sua adesão aos novos hábitos que vai manter o resultado a longo prazo.
Lipedema em mulheres magras: A prova de que não é apenas peso
Um dos maiores mitos que preciso desconstruir diariamente é que o Lipedema é uma doença exclusiva de pessoas com obesidade. Isso não é verdade. Atendo muitas pacientes magras, com índice de massa corporal (IMC) baixo, que sofrem terrivelmente com a desproporção e a dor nas pernas.
Nessas pacientes, o diagnóstico pode ser ainda mais difícil, pois elas ouvem que “estão ótimas” e que a queixa é puramente estética. Mas a dor, o peso nas pernas e a facilidade para hematomas estão lá. O tratamento cirúrgico nessas mulheres exige uma precisão técnica refinada para esculpir o contorno sem causar irregularidades, e o alívio na qualidade de vida costuma ser imediato após a recuperação.
Alinhando Expectativas: A sinceridade médica como base da confiança
Vivemos na era dos filtros de Instagram e das promessas de “corpos perfeitos” em 30 dias. Minha postura profissional é na contramão disso. Quando você entra no meu consultório, seja presencialmente na região do Ibirapuera ou via telemedicina, você encontrará uma médica realista.
Eu discuto abertamente as cicatrizes, o tempo de recuperação, a necessidade do uso de malhas compressivas e a possibilidade de serem necessárias múltiplas etapas cirúrgicas, dependendo do estágio do Lipedema. Não vendo sonhos inatingíveis; ofereço a melhor medicina baseada em evidências para melhorar sua saúde e sua autoestima de forma concreta.
A cirurgia melhora muito o contorno e a dor, mas a pele tem seus limites de retração, mesmo com as melhores tecnologias. Em casos de grandes perdas de peso ou estágios avançados de Lipedema, pode ser necessária a retirada de pele (dermolipectomia) em um segundo momento. Tudo isso é planejado e conversado com transparência.
Não é só sobre estética, é sobre funcionalidade
Muitas mulheres sentem culpa por buscarem a cirurgia, como se fosse uma “futilidade”. É importante reforçar: tratar o Lipedema é tratar saúde. O excesso de peso nas pernas sobrecarrega joelhos e tornozelos, podendo levar a artroses precoces e dificuldades de locomoção. A fricção entre as coxas pode causar lesões na pele e infecções. A dor crônica limita a vida social e profissional.
Ao realizarmos a cirurgia, estamos devolvendo funcionalidade. Estamos permitindo que essa paciente volte a caminhar sem dor, a brincar com os filhos, a encontrar roupas que caibam (e não apenas o que entra). A melhora estética é uma consequência maravilhosa, mas a liberdade de viver sem dor é o objetivo principal.
Cirurgias Reparadoras Pós-Emagrecimento
Além do Lipedema, recebo muitos pacientes que passaram por grandes emagrecimentos (seja por cirurgia bariátrica ou mudança de estilo de vida) e agora lidam com o excesso de pele. O raciocínio é semelhante: a dieta e o treino fizeram sua parte, mas a pele que perdeu elasticidade precisa de intervenção cirúrgica.
Nesses casos, realizamos abdominoplastias, lifting de braços e coxas, sempre com o foco na segurança e na recuperação da autoestima. A abordagem multidisciplinar continua sendo essencial para garantir que o corpo esteja nutrido para cicatrizar bem.
Onde buscar ajuda especializada?
Se você se identificou com os sintomas de pernas grossas, doloridas e resistentes a dietas, saiba que existe um nome para isso e existe tratamento. O Lipedema é uma doença reconhecida (CID-11), e você não precisa sofrer em silêncio achando que a culpa é sua.
Como gestora da nova unidade do Instituto Lipedema Brasil no Ibirapuera, próxima ao aeroporto de Congonhas, facilitei o acesso para pacientes que vêm de outros estados. Oferecemos uma estrutura completa para acolher você desde o diagnóstico até o pós-operatório tardio.
Eu, Dra. Juliana Reis, acredito que a medicina deve ser humana, técnica e, acima de tudo, sincera. Se você busca uma avaliação que considere sua saúde global e não apenas um “orçamento de cirurgia”, convido você a dar o próximo passo.
Conclusão
Entender que a dieta não funciona sozinha para quem tem Lipedema é libertador. Tira o peso da culpa e abre as portas para o tratamento correto. A união entre um estilo de vida anti-inflamatório e a cirurgia plástica especializada é, hoje, o padrão ouro para devolver qualidade de vida e contorno corporal a essas pacientes.
Não desista das suas pernas e nem da sua saúde. Com o acompanhamento correto, é possível viver com menos dor e mais harmonia com o próprio corpo. Estou à disposição para traçarmos, juntas, o melhor plano para a sua realidade.
Por que confiar neste conteúdo?
Este artigo foi redigido com base em protocolos médicos rigorosos e na experiência clínica da Dra. Juliana O. G. Reis (CRM-SP 120293 | RQE 47596). As informações aqui apresentadas seguem as diretrizes das principais entidades de saúde e cirurgia plástica:
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP): Garantia de que a profissional é especialista e segue normas éticas e de segurança.
- International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS): Alinhamento com as técnicas globais mais modernas de contorno corporal.
- CID-11 (Classificação Internacional de Doenças): Base para o reconhecimento do Lipedema como patologia (EF02.2).
- Hospital das Clínicas da FMUSP: Instituição de formação da Dra. Juliana Reis, prezando pela excelência acadêmica e científica.
- Instituto Lipedema Brasil: Protocolos multidisciplinares de referência no tratamento da doença no país.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O Lipedema tem cura?
O Lipedema é uma doença crônica, o que significa que não existe uma “cura” definitiva como em uma infecção bacteriana. No entanto, existe controle. Com o tratamento cirúrgico (remoção do tecido doente) e a manutenção de um estilo de vida saudável, é possível viver sem dor e controlar a progressão da doença, mantendo os resultados a longo prazo.
2. O plano de saúde cobre a cirurgia de Lipedema?
O Lipedema consta no CID-11 como doença. No entanto, o procedimento cirúrgico (lipoaspiração para tratamento de lipedema) ainda não faz parte do rol de procedimentos obrigatórios da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Por isso, na maioria dos casos, a cirurgia não é coberta pelos convênios, embora alguns custos hospitalares possam ser pleiteados via reembolso dependendo do contrato, mas isso requer análise jurídica individual.
3. Homens podem ter Lipedema?
É extremamente raro. O Lipedema é uma doença predominantemente feminina, possivelmente ligada a fatores hormonais (estrogênio). Quando ocorre em homens, geralmente está associado a outras condições hormonais específicas ou doenças hepáticas graves. A vasta maioria dos pacientes são mulheres.
4. Qual a diferença entre Lipedema e Obesidade?
A obesidade é um acúmulo global de gordura causado principalmente pelo balanço energético positivo, respondendo bem a dieta e exercícios. O Lipedema é uma doença do tecido conjuntivo com distribuição desproporcional de gordura (geralmente nas pernas e braços, poupando pés e mãos), acompanhada de dor e inflamação, e que responde pouco à dieta restritiva isolada. Ambas as condições podem coexistir.
5. A lipoaspiração tradicional resolve o Lipedema?
A cirurgia para Lipedema requer cuidados específicos para preservar o sistema linfático, que já é frágil nessas pacientes. O uso de técnicas tumescentes e tecnologias de retração de pele, além de um cirurgião com experiência na patologia, são fundamentais para evitar complicações e garantir a retirada adequada do tecido doente, diferindo da lipoaspiração puramente estética.